Filmografia
Longa Metragens
1962
barravento
Numa aldeia de pescadores de xaréu, cujos antepassados vieram da África como escravos, permanecem antigos cultos místicos ligados ao candomblé. A chegada de Firmino, antigo morador que se mudou para Salvador fugindo da pobreza, altera o panorama pacato do local, polarizando tensões. Firmino tem uma atração por Cota, mas não consegue esquecer Naína que, por sua vez, gosta de Aruã. Firmino encomenda um despacho contra Aruã, que não é atingido, ao contrário da aldeia que vê a rede arrebentada, impedindo o trabalho da pesca. Firmino incita os pescadores à revolta contra o dono da rede, chegando a destrui-la. Policiais chegam à aldeia para controlar o equipamento. Na sua luta contra a exploração, Firmino se indispõe contra o Mestre, intermediário dos pescadores e do dono da rede. Um pescador convence Aruã de pescar sem a rede, já que a sua castidade o faria um protegido de Iemanjá. Os pescadores são bem sucedidos na empreitada, destacando-se a liderança de Aruã. Naína revela para uma preta velha o seu amor impossível por Aruã. Diante da sua derrota contra o misticismo, Firmino convence Cota a tirar a virgindade de Aruã, quebrando assim o encantamento religioso de que ele estaria investido por Iemanjá. Aruã sucumbe à tentação. Uma tempestade anuncia o “barravento”, o momento de violência. Os pescadores saem para o mar, com a morte de dois deles, Vicente e Chico. Firmino denuncia a perda de castidade de Aruã. O Mestre o renega. Os mortos são velados, e Naína aceita fazer o santo, para que possa casar com Aruã. Ele promete casamento, mas antes decide partir para a cidade de forma a trabalhar e conseguir dinheiro para a compra de uma rede nova. No mesmo lugar em que Firmino chegou à aldeia, Aruã parte em direção à cidade.
1964
Deus e o Diabo na Terra do Sol
Manuel e Rosa sub existem no sertão nordestino por meio de trabalhos prestados a um coronel. No dia da partilha de gado entre Manuel e o coronel, os dois discutem e Manuel vinga a injustiça do coronel com sangue. Perseguido, Manuel mata dois capangas do coronel, mas um deles mata sua mãe. Sem mais raízes na casa materna, Manuel resolve seguir o beato Sebastião e seus fiéis. Rosa, sempre cética ao poder de Sebastião, tenta persuadir o marido a desistir da vida santa. Mas Manuel se dedica ardorosamente ao beato, compartilhando com ele um sacrifício de uma criança, quando Rosa, desesperada, assassina o beato enquanto Antônio das Mortes arrasa todos os seguidores de Sebastião. Manuel e Rosa, mais uma vez, se entregam ao destino do sertão, até encontrarem Corisco, o diabo loiro. Este aceita a inclusão de Manuel em seu bando e o rebatiza como Satanás. Com o novo nome, Manuel pilha e destrói fazendas, ganhando fama por todo sertão por meio das cantigas de cego Júlio. Novamente Antônio das Mortes entra em cena para iniciar a ‘grande guerra’, matando Corisco e seu bando, para que Manuel e Rosa rumem em direção ao mar da redenção.
1967
terra em transe
O jornalista e poeta Paulo Martins oscila entre diversas forças políticas que lutam pelo poder no fictício país de Eldorado: D. Porfírio Diaz, um líder de direita e político de tradição, D. Felipe Vieira, governador da Província de Alecrim, líder populista e demagógico, e D. Julio Fuentes, poderoso empresário dono de um império de comunicação. Numa conversa com a militante Sara, Paulo conclui que o povo de Eldorado precisa de um líder e que Vieira possui tais atributos. Eldorado encontra-se entre o golpe de estado e o populismo, entre a crise e a transformação. E Paulo, dividido entre a poesia e a política, agoniza sem conseguir solucionar as incoerências de Eldorado e as suas próprias contradições.
1967
câncer
No Rio de Janeiro, em 1968, em meio à turbulência política da época, um negro carioca, malandro típico, encontra-se com o receptador de seus pequenos golpes. Entre eles, move-se de modo escorregadio uma loura sensual, que contempla alternadamente com seus carinhos um e outro. Sob esta estrutura relativamente prosaica, Câncer traça um painel daquele momento brasileiro, flagrando com câmera nervosa detalhes de um Rio que não existe mais e onde aparece, quase como um personagem do filme, a antiga Cinelândia. Filme rodado em regime de improvisação durante quatro dias no Rio de Janeiro, em 1968, mas finalizado em Cuba e na Itália em 1972. Segue três personagens, interpretados por Hugo Carvana, Antônio Pitanga e Odete Lara, envolvidos em situações de violência latente, incitada por questões de raça, classe e sexo. Câncer é a Primeira experiência de som direto nos filmes de Glauber Rocha.
1968
O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro
Coirana e um grupo de cangaceiros invadem o Jardim das Piranhas ameaçando instalar o caos. Apesar da oposição do coronel Horácio, Matos contrata Antônio das Mortes para exterminar o bando. Em Jardim das Piranhas o clima é tenso com o delírio de grandeza do Coronel, as ambições políticas do delegado, a desilusão do professor, a solidão triste de Laura, e a crise mística do padre. Após duelar com Coirana e vencê-lo, Antônio das Mortes recebe uma revelação da Santa e passa a agir em nome de seus conceitos de moral e justiça. Unindo-se ao Professor, elimina os jagunços de Mata Vaca, contratados pelo coronel Horácio. Dragão da Maldade contra O Santo Guerreiro é filmado em som direto.
1970
Der Leone Have Sept Cabezas
Um pregador caminha por terras africanas. Uma tribo realiza cerimônia para velar o corpo de um negro. Um dos integrantes, Zumbi, é reverenciado pelos demais. Ele fala sobre a escravidão e a exploração dos negros por parte dos brancos. Um homem armado, Pablo, caminha entre manifestantes negros que defendem o fim da colonização. Entre eles também está um grupo de brancos. Integram esse grupo um agente americano, uma mulher, Marlene, e dois homens. Pablo manifesta-se a favor da resistência e é agredido pelo pregador que o aprisiona e entrega-o ao grupo de brancos. Ele é castigado. Alguns negros reunidos discutem a possibilidade de realizar uma revolução armada. O grupo de brancos negocia com Xobu, o representante do povo local, um acordo que visa o fim do colonialismo. O representante é nomeado presidente e discursa sobre os progressos do país comemorando ao lado da população. Os brancos quebram o acordo e fuzilam um grupo de negros. Xobu é traído. Zumbi liberta Pablo e os dois se unem à milícia de resistência para tomar o poder do grupo dominante. Sob os olhares atentos da população local, o pregador castiga Marlene. Os outros são expostos à população em meio a comemoração e sofrem retaliações. Ao lado de Zumbi e Pablo, o povo dança e festeja. Junto aos milicianos, os dois caminham pela floresta.
1970
cabeças Cortadas
Diaz é um déspota delirante que vive enclausurado em seu castelo, com sonhos de onipotência. Fora do castelo, um pastor realiza milagres e conduz o povo.
1973
história do brasil
Filme de montagem realizado no exílio de 1971 a 1973 entre Cuba e Roma, e finalizado em Paris em 1974. Depois de rodar o “Leão de 7 Cabeças” e se declarar um cineasta “tri-continental” Glauber se junta em Cuba ao líder Marcos Medeiros que regressava das guerrilhas de 1968 para montar um inventário político da América Latina. Em “off” a certa altura, Glauber dialoga com Medeiros, por exemplo, sobre o perfil dos presidentes militares que se sucediam no poder.
É considerado um trabalho “semi-acabado”de Glauber que tem um certo caráter pedagógico e procura através de uma montagem dialética fazer uma revisão crítica da colonização, da luta de classes, do Messianismo e da implantação dos governos populistas no Terceiro Mundo. Há uma cronologia nos fatos apresentados que,apoiados em vasta iconografia (filmes, gravuras, fotos,etc…) operam contudo, associações “livres” que permitem ao espectador uma visão “polifônica” da “Hystorya do Brazyl”.
Com narração de Jirges Ristum, o documentário recorre a diversas imagens pertencentes ao acervo do ICAIC (Instituto Cubano) que mostram Fidel Castro e Chê Guevara em plena Revolução até cenas de filmes brasileiros como “São Paulo S/A”, “Assalto ao Trem Pagador” bem como imagens documentais do Golpe de 64 no Brasil pontuadas por canções tropicalistas. “História do Brasil”ficou censurado no país desde sua realização sendo liberado para exibição apenas em 1985
1975
claro
Uma mulher caminha pela cidade de Roma. Ela canta, grita e discursa sob os olhares atentos das pessoas que transitam pelas ruas, parque e praças da cidade. Ela e Glauber Rocha conversam junto a um grande edifício. A mesma mulher envolve-se com uma série de tipos característicos como um travesti, com quem conversa longamente, ou os irmãos Mario e Carlo, filhos de um capitalista confesso, e ainda participa de algumas manifestações anti-fascistas transitando entre os manifestantes. Mario e Carlo discutem a possibilidade de matar o pai para ficarem com seu dinheiro enquanto o americano Manson, trancafiado em um quarto, revela a amiga Yvone toda sua amargura em relação às lembranças da Guerra do Vietnã. Junto a uma região pobre da cidade, a mulher, acompanhada de Glauber, caminha entre casas. A presença dos dois causa alvoroço. Eles conversam e discutem com moradores locais. Sentado em uma cadeira de balanço, ele canta e fala ao telefone enquanto escuta algumas músicas brasileiras. Imagens de pinturas, noticias de jornais italianos, capas de revistas e pessoas confundem-se ao som das músicas.
1980
a idade da terra
Estruturando livremente denúncia política e social, com passagens de caráter abertamente didático ou panfletário, surgem alusões à vida e à missão do Cristo, que aparece ora como operário, ora como personagem de candomblé. Os personagens são metáforas de uma situação política ou arquétipo de um comportamento: um pescador marginal místico, um profeta negro, o conquistador português, o subversivo de classe média, as forças imperialistas, as nações indígenas, a força das amazonas, a mulher moderna e outros. É a própria perplexidade do Terceiro Mundo, numa tentativa de síntese da história econômica ocidental, com apelos à revolução, à compreensão universal, à paz e a uma democracia que não seja nem capitalista nem socialista.
Documentários e Curta Metragens
1959
cruz na praça
Mostra uma cena de atração dois rapazes dentro da igreja. Ambos estavam rezando e, num determinado momento, um dos rapazes, excitado tanto pela reza quanto pelo físico do outro, se lança sobre ele, arrancando o seu membro com a mão. O castrado (representado por Luís Carlos Maciel) começa a perseguir o castrador em torno da cruz na praça. Cruz na Praça mostra o erotismo e o desejo frustrado de um homem conflitado em sua homossexualidade. Herdeiro da tradição católica, o rapaz dança pela igreja diante dos anjos barrocos e da cruz. A mutilação do desejo reprimido é comparada ao erotismo ingênuo da nudez dos anjos. Glauber anuncia o sentido sagrado, profano do ornamento religioso, assimilado ao comportamento erótico, selvagem e ressentido do rapaz. Mostra a imagem da cruz conciliada ao sentido profano daquele desejo, o sexo é dramatizado como libertação e desafio.
1959
pátio
Num terraço de azulejos em forma de xadrez, um rapaz e uma moça jogados sobre um pátio. O casal compõe um jogo de formas. Seus movimentos se desenvolvem lentamente: tocam-se, rolam no chão, aproximam e se afastam.
1965
Amazonas, amazonas
Primeiro ensaio em cores de Glauber Rocha, rodado entre Deus e o diabo na terra do sol e Terra em transe. Foi encomendado para ser um documentário clássico sobre as belezas e riquezas naturais da região amazônica, mas não deixa de ter características glauberianas, como o arrebatamento lírico das tomadas e as preocupações nacionalistas do diretor, reveladas na presença de pessoas no trabalho, sequências urbanas, de produtores e mercadorias.
1966
maranhão 66
Posse de José Sarney, governador do Estado do Maranhão. Ao discurso do político eleito, opõem-se as imagens das mazelas sociais e demais problemas crônicos do Estado nordestino: famintos desassistidos, casas miseráveis e doentes desamparados.
1968
1968
A Passeata dos 100 Mil foi um dos eventos mais importantes da luta contra a ditadura militar. No dia 26 de junho de 1968, aproximadamente cem mil pessoas ocuparam as ruas do Centro do Rio de Janeiro para protestar contra o ambiente de opressão e violência que dominava a sociedade brasileira do período. A partir de 1967, as passeatas estudantis foram a forma mais significativa de oposição por parte da sociedade ao regime militar, agregando cada vez mais manifestantes por evento e refletindo a crescente insatisfação com a ditadura. No segundo semestre de 1968, as autoridades militares passaram a perseguir líderes estudantis, políticos e artistas críticos ao regime. No dia 13 de dezembro de 1968, o governo edita o AI-5, ato institucional que acabava definitivamente com as liberdades individuais e reprimindo violentamente todo ato de insubmissão contra a ditadura.
1970
Letícia em marrocos
Depois de rodar “Cabeças Cortadas” em 1970 na Espanha, Glauber viaja para Marrocos com as amigas Letícia Maria Moreira de Souza e Flora Bildner (Mossa) onde realiza o diário de filmagem “Letícia e Mossa em Marrocos”, um ensaio que registra o passeio dos três pelas feiras de Marrakesh.
1972
paloma, paloma
Sem autorização dos militares brasileiros, os familiares atravessam “clandestinamente” a ponte de Foz de Iguaçu, para reverem Glauber no Uruguai, onde participaria de uma reunião política com o amigo Darcy Ribeiro e o ex-presidente João Goulart. A câmera, ora com Glauber, ora com Walter, capta o cotidiano e revela o espírito irreverente dos “atores” daquele momento histórico-afetivo.
1974
as armas e o povo
Na manhã do dia 1 de maio de 1974, Glauber Rocha visita um bairro de lata da periferia lisboeta, em Algés, para contactar e ouvir de viva voz as opiniões das populações mais fragilizadas.Enquanto a maioria dos cineastas ficaria concentrada em Lisboa, atenta aos principais protagonistas militares e políticos, Glauber Rocha e outros (Fernando Matos Silva no Barreiro e José Sá Caetano em Setúbal) filmam as populações de fora de Lisboa, sobretudo operários ou pessoas sem emprego formal. Nesse espaço degradado, o cineasta brasileiro ouve sobretudo mulheres, que relatam a precariedade das suas condições de vida e de habitação.
1977
DI CAVALCANTI DI GLAUBER
Glauber Rocha faz uma homenagem ao artísta plástico Di Cavalcanti. Além de falar sobre o amigo morto, o cineasta, fala de arte e política, por cima de uma colagem de imagens.
1979
jorge amado no cinema
A obra do escritor baiano, sua carreira literária e as adaptações cinematográficas de seus romances, especialmente “Tenda dos Milagres” e “Dona Flor e Seus Dois Maridos.” “Entrevista com Jorge Amado em sua casa no Rio de Janeiro. O escritor fala sobre sua obra e sua carreira literária, seus livros adaptados para o cinema, particularmente Tenda dos Milagres, Os Pastores da Noite, Dona Flor e Seus Dois Maridos. Amigos e parentes opinam sobre os três últimos filmes baseados em suas obras. Cineastas e atores falam sobre Tenda dos Milagres. Jorge Amado, na intimidade, apresenta sua família.
Crono Biografia
1939
Nasce no dia 14 de março, às 3h40, em Vitória da Conquista, Bahia, Glauber de Andrade Rocha, primeiro filho de Adamastor Bráulio Silva Rocha e Lúcia Mendes de Andrade Rocha. 0 nome Glauber, dado pela mãe, foi inspirado no do cientista alemão Johann Rudolf Glauber (1603-68), que descobriu o sulfato de sódio ou “sal de Glauber”. É batizado na Igreja presbiteriana, tendo como padrinhos a própria mãe e o pastor. O pai vinha de família católica.
Torna-se obrigatória a exibição de um longa-metragem brasileiro por ano em cada sala de cinema. Cria-se o DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), órgão governamental encarregado da censura. A Cinédia e a Sonofilmes produzem comédias musicais; Carmem Miranda lança o compositor Dorival Caymmi no filme “O Que é que a Baiana Tem?”. Raul Roulien filma Aves sem Ninho. Com o crescimento da colônia nipônica, filmes japoneses são exibidos regularmente em São Paulo. Getúlio Vargas é o presidente da República desde 1934, tendo assegurado sua permanência no governo com o golpe que instaurou o Estado Novo em 1937.
1940
Em 27 de agosto, nasce Ana Marcelina de Andrade Rocha, irmã de Glauber.
A Cinédia lança Pureza, adaptação de José Lins do Rego. 0 INCE (Instituto Nacional de Cinema Educativo) produz Bandeirantes, de Humberto Mauro, com Carmem Santos. A Companhia Americana de Filmes, em São Paulo, produz Eterna Esperança, de Leo Marten. Paulo Emilio Salles Gomes anima o primeiro Clube de Cinema de São Paulo, na Faculdade de Filosofia.
1941
A guerra impede a importação de filme virgem. É fundada, no Rio, a Atlântida Cinematográfica S.A. A Cinédia leva vedetes do teatro Dulcina e Odilon, para o cinema, em 24 horas de Sonho.
1942
Em 26 de outubro, nasce a segunda irmã de Glauber, Anecy de Andrade Rocha.
Orson Welles filma “It’s all True” no Brasil. Fim da revista Cinearte, publicada desde 1916. Vinícius de Moraes, crítico de cinema, inicia polêmica sobre o cinema mudo e o falado. O Brasil declara guerra aos países do Eixo durante a II Guerra Mundial.
1943
A Atlântida produz seu primeiro longa-metragem, “Moleque Tião”, de José Carlos Burle, sucesso com Grande Otelo. A Cinédia lança “Samba em Berlim”, de Luís de Barros, sátira musical de Hitler e do nazismo.
1944
Oscarito e Grande Otelo são reunidos pela Atlântida em Tristezas não pagam Dívidas, de J. C. Burle e R. Costa. A Cinédia produz “Berlim na Batucada”, de Luís de Barros, com Procópio Ferreira, sátira das relações de amizade de entre o Brasil e os EUA.
1945
Glauber, aos seis anos, viaja para o Rio de Janeiro com os pais.
A Cinédia produz “O cortiço”, de Luís de Barros, adaptado de Aluísio de Azevedo, e investe em adaptações literárias. A dupla Oscarito e Grande Otelo estreia “Não adianta Chorar”, de Watson Macedo (Atlântida). Humberto Mauro inicia a série Brasilianas no INCE com “Chuá-Chuá” e “Casinha Pequenina”. Getúlio Vargas é deposto pelo exército. Eurico Gaspar Dutra torna-se presidente da República. – Glauber, aos seis anos, viaja para o Rio de Janeiro com os pais.
1946
Alfabetizado pela mãe, Glauber entra para a escola, aos sete anos. Cursa o primário num colégio católico em Vitória da Conquista. Morre a avó de Glauber, D. Marcelina Mendes de Andrade.
Torna-se obrigatória a exibição de três longas-metragens brasileiros por ano em cada sala. Jorge Amado, deputado em São Paulo, pelo Partido Comunista, propõe uma nova legislação cinematográfica. “O Ébrio”, de Gilda de Abreu, com Vicente Celestino, é o grande sucesso da Cinédia.É criado o Clube de Cinema da Faculdade de Filosofia do Rio de Janeiro.
1947
Glauber acompanha o pai nas viagens pelo sertão da Bahia.
Luiz Severiano Ribeiro torna-se acionista majoritário da Atlântida. A chanchada domina o cinema brasileiro com filmes populares e distribuição garantida.
1948
Em agosto, a família de Glauber muda-se para Salvador. O pai abre no centro da cidade a loja O Adamastor. Engenheiro de estradas de rodagem, o pai sofre um acidente que deixa graves sequelas. A mãe, aos 29 anos, assume os negócios e a chefia da família.
Carmem Santos realiza Inconfidência Mineira; a Atlântida realiza Terra Violenta, adaptação de Jorge Amado. No Rio é criado o Círculo de Estudos Cinematográficos. Surgem os cineclubes de Porto Alegre, Santos e Fortaleza.
1949
Em março, Glauber vai para o internato do Colégio Presbiteriano 2 de julho, em Salvador, conhecido pela disciplina e rigor. Lá recebe educação religiosa e participa das festas e do coro do colégio. Escreve a peça de teatro “El Hilito de Oro”, encenada no colégio pelo professor Josué de Castro. Na peça, Glauber faz o papel principal, de um príncipe espanhol.
Comemorações do IV centenário da fundação da cidade de Salvador em 29 de março. Fundação da Companhia Vera Cruz em São Paulo. A Atlântida produz “Carnaval no Fogo”, de Watson Macedo, e “Também Somos Irmãos”, de José Carlos Burle. Carmem Santos produz “Inocência”, adaptação de Taunay. O Clube de Cinema torna-se a Cinemateca do Museu de Arte Moderna de São Paulo.
1950
Glauber pede para ser transferido do internato para o externato do Colégio 2 de julho.
Início da televisão no Brasil com a primeira emissão pública, da TV Tupi, em São Paulo. A Vera Cruz produz “Caiçara”, de Adolfo Celi. Em Salva dor, Walter da Silveira cria o Clube de Cinema da Bahia. Getúlio Vargas é eleito para um novo mandato como presidente da República.
1951
Torna-se obrigatória a exibição de um filme brasileiro a cada oito filmes estrangeiros distribuídos. A Vera Cruz produz “Terra é sempre Terra” e “Ângela”. A Cinédia lança “Lucíola”, baseado em José de Alencar, e “Anjo do Lodo”, com Virgínia Lane. Cria-se o Círculo de Estudos Cinematográficos de Minas Gerais.
1952
Aos treze anos, Glauber participa, como crítico de cinema, do programa “Cinema em Close-Up”, na Rádio Sociedade da Bahia. A irmã de Glauber, Ana Marcelina, morre de leucemia, fato que causa grande impacto em toda a família. A mãe, Lúcia Rocha, monta um pensionato na rua General Labatut, 14. Nasce Ana Lúcia Mendes Rocha, irmã mais nova de Glauber.
A Multifilmes é fundada em São Paulo. A Vera Cruz produz “Tico-Tico no Fubá” e ´Sai da Frente”, estreia do cômico Mazzaropi. Alberto Cavalcanti dirige “Simão, o Caolho”, seu primeiro filme no Brasil. A Atlântida produz “Carnaval Atlântida” e “Barnabé tu és Meu”, de José Carlos Burle. Humberto Mauro filma “O Canto da Saudade”. Surge a revista Cinelândia.
1953
Glauber escreve ao tio, Wilson Mendes de Andrade, falando do desejo de ser escritor. Lê Jorge Amado, Érico Veríssimo, clássicos da literatura juvenil, filosofia (Nietzsche e Schopenhauer). Freqüenta o cinema e lê histórias em quadrinhos.
Grande seca no Nordeste. Em Salvador, o pioneiro do cinema baiano, Alexandre Robatto Filho, lança o curta-metragem “Entre o mar e o Tendal” documentário sobre a pesca do xaréu que marca o cinema baiano dos anos 50 e o Glauber de “Barravento”. A Vera Cruz produz “O Cangaceiro”, de Lima Barreto, Sinhá Moça, filme de época, e a comédia “Uma Pulga na Balança”. A Atlântida lança “Uma Dupla do Barulho”, de Carlos Manga, e “Amei um Bicheiro”, de Jorge Ileli e Paulo Wanderley. A Multifilmes produz o primeiro longa-metragem em cores, “Destino em Apuros”. Alex Viany dirige “Agulha no Palheiro”. Alberto Cavalcanti propõe a criação do Instituto Nacional do Cinema (INC).
1954
No Colégio Central da Bahia, Glauber cursa o clássico. Torna-se membro do Círculo de Estudo, Pensamento e Ação (CEPA), dirigido pelo professor Germano Machado, católico, nacionalista e anticomunista. Glauber escreve o balé “Sefanu”, “criticado pelos líderes intelectuais do 3° ano Klassyko como Exoteryko e Homossexual”. Passa a frequentar o Clube de Cinema, animado pelo crítico Walter da Silveira.
Suicídio do Presidente Getúlio Vargas, comoção nacional. Falência da Vera Cruz, depois de produzir “Floradas na Serra”, com Cacilda Becker e Jardel Filho. Alberto Cavalcanti filma “O Canto do Mar” e “Mulher de Verdade”. Alex Viany dirige “Rua sem Sol”. Carlos Manga dirige “Nem Sansão nem Dalila” e “Matar ou Correr”. Watson Macedo dirige “O Petróleo é Nosso”. Surge a Revista de Cinema de Belo Horizonte.
1955
É criado o grupo Jogralescas Teatralizações Poéticas, a partir de uma ideia de Fernando da Rocha Peres combinando poesia e teatro. Glauber dirige as encenações.
Nelson Pereira dos Santos realiza “Rio, 40 Graus”. A baiana Marta Rocha é recebida com festa em Salvador depois de ficar em segundo lugar no concurso de Miss Universo, por duas polegadas. A morte de Carmem Miranda leva multidões ao seu enterro, no Rio.
1956
Fundação da Sociedade Cooperativa de Cultura Cinematográfica Yemanjá. Primeira apresentação do grupo Jogralescas Teatralizações Poéticas, em setembro, no aniversário do Colégio Central da Bahia. Glauber participa do grupo, que encena poesias brasileiras, a maioria de poetas modernistas. Conhece Milze Maria Soares. Colabora no filme “Um dia na Rampa”, curta-metragem de Luiz Paulino dos Santos filmado no Mercado Modelo de Salvador.
Juscelino Kubitschek é o Presidente da República, tendo como vice João Goulart. A cultura na Bahia ganha novo impulso com a criação da Escola de Teatro da Universidade da Bahia, dirigida por Martim Gonçalves, o curso de música dirigido pelo maestro Hans Koellreuter, a Escola de Dança, dirigida por Janka Rudzka. Criação da Cinemateca Brasileira em São Paulo. Lançado “Colégio de Brotos”, de Carlos Manga.
1957
Glauber viaja para Minas Gerais, Rio de janeiro e São Paulo. Em Belo Horizonte encontra Adolfo Celi, Paulo Autran e Tônia Carrero. Visita o Centro de Estudos Cinematográficos (CEC) e entra em contato com Frederico de Moraes, Maurício Gomes Leite, Flávio Pinto Vieira, Fritz Teixeira Salles, Geraldo Fonseca, responsáveis pelas edições da Revista de Cinema e revista Complemento. No Rio, tenta financiamento para uma série de filmes da Sociedade Cooperativa de Cultura Cinematográfica Yemanjá, da qual participam Glauber, Luiz Paulino dos Santos, Paulo Gil Soares, Fernando da Rocha Peres, José Teles, Alberico Morta, Fred Souza Castro, Jaime Cardoso Tarcísio Araújo, Newton Rocha, José Azulay. Entre os projetos, o curta-metragem “Senhor dos Navegantes”. Visita as filmagens de “Rio, Zona Norte”, de Nelson Pereira dos Santos e conhece Alex Viany.
Em São Paulo, inteira-se do movimento concretista. Volta a Salvador e inicia o curso de direito da Universidade Federal da Bahia, que cursaria até o terceiro ano. Chamado por Ariovaldo Mattos, participa do jornal de esquerda O Momento. Colabora nas revistas culturais Mapa e Ângulos e no semanário “Sete Dias”. Filma “Pátio”, com Solón Barreto e Helena Ignez, um filme formalista,influenciado pelo concretismo. Utiliza as sobras de material do longa-metragem “Redenção”,de Roberto Pires.Criação da Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Nelson Pereira dos Santos filma “Rio, Zona Norte”. São lançadas as comédias “Osso, Amor e Papagaios”, de Carlos Alberto de Souza Barros e César Mêmolo Jr., “A Baronesa Transviada”, de Watson Macedo, com Dercy Gonçalves. Anselmo Duarte dirige “Absolutamente Certo”; aparece a Revista de Cultura Cinematográfica. Surgem os cineclubes católicos.
1958
Glauber inicia sua carreira jornalística como repórter de polícia do jornal da Bahia, onde trabalha ao lado de Inácio de Alencar, Ariovaldo Matos, Paulo Gil Soares, Fernando da Rocha Peres e Calazans Neto. Posteriormente, começa a publicar artigos sobre cinema e assume a direção do Suplemento Literário. Passa a escrever para a página “Artes e Letras”, do suplemento dominical do Diário de Notícias, de Salvador, e para o Suplemento Dominical do Jornal do Brasil (SDJB). Nessa época também trabalha como funcionário público da Prefeitura de Salvador.
Desenvolvimento do cinema paulista. Roberto Santos filma “O Grande Momento”; Walter Hugo Khoury dirige “Estranho Encontro”; são lançados “Cara de Fogo”, de Galileu Garcia, e “Rebelião em Vila Rica”, de Geraldo e Renato Santos Pereira. No Rio de janeiro surge a Federação dos Cineclubes.
1959
Glauber viaja a São Paulo para participar com Walter da Silveira do Congresso dos Cineclubes. Mostra o copião de “Pátio” a Walter Hugo Khoury. Conhece, em São Paulo, Paulo Emílio Salles Gomes, Almeida Salles, Rudá de Andrade, Jean-Claude Bernardet, Gustavo Dahl. Viaja para o Rio, onde monta e conclui “Pátio”. Lança “Pátio” em Salvador e promove sessões no Rio. Ainda em Salvador, em 30 de junho, Glauber casa-se com a colega de universidade e atriz de Pátio, Helena Ignez. Por exigência do padre, Glauber recebe batismo católico e acrescenta Pedro ao seu nome, assinando Glauber Pedro de Andrade Rocha. Passa a lua-de-mel no Hotel Quitandinha, no Rio de janeiro, e compra uma câmera Arryflex 35 mm “por sessenta contos com tripé e sem zoom”. Inicia, logo após o casamento, as filmagens, no Terreiro de Jesus, em Salvador, de seu segundo curta-metragem, o inacabado “Cruz na Praça”, baseado num conto de sua autoria, “A Retreta na Praça”, publicado noPanorama do Conto Baiano. O filme não foi terminado, “pois quando vi o material montado, compreendi que essas ideias não funcionavam mais, que a minha concepção estética já não era a mesma”. Publica artigos sobre cinema no Jornal do Brasil e no Diário de Notícias.
Torna-se obrigatória a exibição de filmes brasileiros 42 dias por ano. “Aruanda”, de Linduarte Noronha, é filmado na Paraíba; no Rio, “Arraial do Cabo”, de Paulo César Saraceni e Mário Carneiro; lançamento de “Redenção”, de Roberto Pires, o primeiro longa-metragem baiano. Floresce a produção dos jovens cineastas cariocas, baianos e paulistas. No Rio, “O Homem do Sputinik”, de Carlos Manga, lança Norma Benguell; em São Paulo, Rubem Biáfora produz “Ravina” e “Orfeu Negro”, dirigido pelo francês Marcel Camus, filmado no Rio, adaptação de uma peça de Vinícius de Moraes – Orfeu Negro ganha a Palma de Ouro em Cannes e o Oscar de melhor filme estrangeiro. É criado o Museu de Arte Moderna da Bahia, dirigido por Lina Bo Bardi. Na América Latina, vitória da Revolução Cubana.
1960
Nasce a primeira filha de Glauber, Paloma de Melo Silva Rocha, em 12 de junho. Glauber trabalha como produtor executivo de “A Grande Feira”, longa-metragem de Roberto Pires, produzido por Rex Schindler. Iniciadas as filmagens de “Barravento” por Luiz Paulino dos Santos, Glauber volta a atuar na produção executiva. Após um conturbado início de filmagem, Glauber assume a direção de “Barravento”, aproveitando alguns copiões de Luiz Paulino, mas refazendo o roteiro. Em carta de 2 de novembro, conta a Paulo Emílio Salles Gomes como tomou-se diretor. Começa a corresponder-se com o cubano Alfredo Guevara.
Joaquim Pedro de Andrade realiza o curta-metragem “Couro de Gato”. Carlos Coimbra lança “A Morte comanda o Cangaço”, explorando o filão dos filmes de cangaceiros. Nelson Pereira dos Santos vai para a Bahia filmar “Vidas Secas”, mas, com as chuvas filma “Mandacaru Vermelho”. A equipe hospeda-se na pensão de Lúcia Rocha. Inauguração de Brasília. Sartre e Simone de Beauvoir visitam a Bahia e dão conferência em Salvador.
1961
Glauber e Helena Ignez separam-se. Glauber finaliza “Barravento” no Rio de janeiro, com montagem de Nelson Pereira dos Santos. Conhece Edla van Steen, Regina Rosemburgo e Rosa Maria Penna.O cinema baiano destaca-se com “Bahia de Todos os Santos”, de Trigueirinho Neto, “A Grande Feira”, de Roberto Pires, e “Barravento”, de Glauber.
É criado o Geicine (Grupo Executivo da Indústria Cinematográfica). Jânio Quadros deixa a presidência da República. João Goulart assume em meio à crise política.
1962
Primeira viagem de Glauber à Europa. “Barravento” recebe o prêmio Opera Prima no Festival Internacional de Cinema de Karlovy Vary, na Tchecoslováquia. No mesmo ano, o filme também é apresentado no Festival de Sestri Levanti, Itália. Glauber participou do festival de Santa Margherita, na Itália. Conhece Praga, Roma, Paris, Lisboa. Produz o curta-metragem “Imagens da Terra e do Povo”, de Orlando Senna. Conhece o crítico francês Georges Sadoul numa viagem deste à Bahia e o reencontra em Karlovy Vary. Projetos: em carta para Alfredo Guevara de 21 de novembro, fala pela primeira vez em realizar “América Nuestra”, um épico sobre a América Latina que não seria realizado. Paulo Emilio Salles Gomes propõe a Glauber dirigir, na Bahia, o filme “Dina do Cavalo Branco”, roteiro de Paulo Emilio não realizado. Glauber responde à proposta em carta de Salvador, sem data, provavelmente de 1962.
Início do Cinema Novo com a explosão da produção cinematográfica a partir do Rio. “Cinco Vezes Favela” é produzido pelo Centro Popular de Cultura (CPC) da UNE, reunindo cinco curtas de Leon Hirszman, Joaquim Pedro de Andrade, Cacá Diegues, Miguel Borges e Marcos Farias. Ruy Guerra lança “Os Cafajestes”. “O Pagador de Promessas”, de Anselmo Duarte, ganha a Palma de Ouro em Carnes. São lançados: “Boca de Ouro”, de Nelson Pereira dos Santos, “O Assalto ao Trem Pagador”, de Roberto Farias, Romeiros da Guia, de João Ramiro Mello e Vladimir Carvalho. É organiza do o Conselho Nacional dos Cineclubes.
1963
No dia 18 de junho Glauber inicia as filmagens de “Deus e o Diabo na Terra do Sol” no sertão da Bahia, concluídas em 2 de setembro. Publica “Revisão Crítica do Cinema Brasileiro” pela Editora Civilização Brasileira. Começa a colaborar com a revista Cine Cubano. Em 16 de junho, o escritor Alberto Moravia faz, no L’Espresso, crítica elogiosa de “Barravento”. Segundo Moravia, trata-se de “um dos mais belos filmes que temos visto atualmente”. Em agosto, “Barravento” é selecionado para o Festival de Cinema de Londres e, em setembro, incluído entre os dez filmes escolhidos para o Festival de Cinema de Nova York, que inaugurao Lincoln Center for the Performing Arts. Em carta para Paulo César Saraceni de abril/maiopropõe adaptar o romance “Menina Morta”, de Cornélio Penna, para o cinema.
O Cinema Novo ganha visibilidade com três grandes filmes sobre o Nordeste: “Vidas Secas”, de Nelson Pereira dos Santos, “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Glauber, lançado em 64, e “Os Fuzis”, de Ruy Guerra. Outros filmes se destacam: “Ganga Zumba”, de Cacá Diegues, “Garrincha: Alegria do Povo”, de Joaquim Pedro de Andrade, “Porto das Caixas”, de Paulo César Saraceni, A Ilha, de Walter Hugo Khoury. Torna-se obrigatória a exibição de filmes brasileiros 56 dias por ano. Cerca de trezentos cineclubes participam da reunião nacional em Porto Alegre. No Rio, Carlos Lacerda cria a Comissão de Ajuda à Indústria Cinematográfica (CAIC). Crise na política, com greves, manifestações e comícios pedindo reformas de base.
1964
Quando ocorre o golpe militar Glauber está fora do país, em sua segunda viagem à Europa para levar “Deus e o Diabo na Terra do Sol” ao Festival de Cannes. O filme concorre à Palma de Ouro, é exibido em 11 de maio, mas não é premiado. Os amigos e a família escrevem a Glauber pedindo que não volte imediatamente ao Brasil devido à crise política. Glauber vai à Paris e viaja pela Itália. Exibe seu filme no México, viaja pelos Estados Unidos, vai a Nova York e Los Angeles, conhece Hollywood. Recebe o prêmio da crítica mexicana no Festival Internacional de Acapulco, o Grande Prêmio do Festival de Cinema Livre, na Itália, eo Náiade de Ouro do Festival Internacional de Porreta Terme, também na Itália. Maurício do Valle, como Antônio das Mortes, recebe o prêmio Saci de melhor ator coadjuvante dado pelo jornal O Estado de São Paulo. No dia 19 de junho, “Deus e o Diabo” estreia no Rio de Janeiro nos cinemas Caruso, Bruni-Flamengo e Ópera, entre outros do circuito Lívio Bruni. Em 26 de junho, devido ao sucesso de “Deus e o Diabo”, “Barravento” é lançado no Rio, nos cinemas Plaza, Riviera, Olinda e Mascote, anunciado como um filme de “violência, sexo, suspense e fetichismo”, apresentando “a beleza satânica de uma mulher no mais excitante nu do cinema!”.
João Goulart é deposto pelo golpe militar. O Marechal Humberto Castelo Branco é nomeado presidente da República. É criado o SNI (Serviço Nacional de Informação). O Brasil rompe relações com Cuba. O Golpe interrompe as filmagens de “Cabra Marcado para Morrer”, de Eduardo Coutinho. São feitos os documentários “Maioria Absoluta”, de Leon Hirszman,“Integração Racial”, de Paulo César Saraceni, “Meninos do Tietê”, de Maurício Capovilla e osfilmes “Noite Vazia”, de Walter Hugo Khoury, e “Selva Trágica”, de Roberto Farias.
1965
Ainda fora do Brasil, Glauber lança o texto-manifesto “A Estética da Fome”, apresentado em janeiro na Resenha do Cinema Latino Americano, em Gênova. O texto, escrito no avião entre Los Angeles e Milão, traz as bases estéticas e políticas do Cinema Novo e critica o paternalismo europeu em relação ao Terceiro Mundo. Surge a Mapa Filmes que tem como sócios Glauber, Zelito Viana, Walter Lima Jr., Paulo César Saraceni e Raymundo (“Dico”) Wanderley Reis. Glauber coproduz “Menino de Engenho”, de Walter Lima Jr. Em novembro, é preso num protesto contra o regime militar em frente ao Hotel Glória, no Rio de Janeiro, durante reunião da OEA (Organização dos Estados Americanos). São presos com Glauber: Joaquim Pedro de Andrade, Mário Carneiro, Flávio Rangel, Antônio Callado, Carlos Heitor Cony, Jaime Rodrigues, Márcio Moreira Alves. A prisão tem repercussão internacional e um telegrama de protesto assinado por Truffaut, Godard, Alain Resnais, Joris Ivens e Abel Gance é enviado ao presidente Castelo Branco e apressa a saída da prisão. No final do ano, Glauber viaja para o Amazonas, onde passa o Natal de 65 filmando, em Manaus e Parintins, em meio a problemas de produção, o curta “Amazonas Amazonas”, seu primeiro filme colorido. A Editora Civilização Brasileira publica “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, com textos e entrevistas de diferentes autores sobre o filme.A política, o cenário urbano e o mundo rural marcam as produções do Cinema Novo: “O Desafio”, de Paulo César Saraceni, “São Paulo S. A.”, de Luiz Sérgio Person, “A Falecida”, de Leon Hirszman, “Menino de Engenho”, de Walter Lima Jr., “O Circo”, de Arnaldo Jabor.
São realizados os documentários: “Viramundo”, de Geraldo Sarno, “Memória do Cangaço”, de Paulo Gil Soares, “Nossa Escola de Samba”, de Manuel Jimenez. Surge a Difilm, cooperativa de distribuição dos filmes do Cinema Novo. É criado o curso de cinema da Universidade de Brasília. Acontece o 1 ” Festival do Filme, no Rio, e o Festival do Curta-Metragem Jornal do Brasil. Nos EUA, na Califórnia, surgem as primeiras comunidades hippies.
1966
Filma, no início do ano, o curta “Maranhão 66”, documentando a posse do governador do Maranhão, José Sarney. A experiência servirá na concepção de sequências de campanhas políticas em “Terra em Transe”. “Deus e o Diabo na Terra do Sol” recebe o Grande Prêmio Latino-Americano no Festival Internacional de Mar del Plata. O roteiro do filme é publicado nacoleção italiana Cineforum. “Deus e o Diabo” é capa da revista francesa Positif n” 73, de fevereiro, que inclui o manifesto “A estética da violência” e o artigo “Cangaço 65, Cris du Brésil”. Glauber coproduz “A Grande Cidade”, de Cacá Diegues.
O Cinema Novo diversifica seus caminhos com “O Padre e a Moça”, de Joaquim Pedro de Andrade, “A Grande Cidade”, de Cacá Diegues, “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”, de Roberto Santos, “Os Subterrâneos do Futebol”, de Maurício Capovilla. Leila Diniz faz “Todas as Mulheres do Mundo”, comédia de Domingos de Oliveira de grande sucesso. É criado o Instituto Nacional do Cinema, presidido por Flávio Tambellini. Paulo Emilio Salles Gomes e Adhemar Gonzaga publicam 70 anos de cinema brasileiro.
1967
Terceira viagem de Glauber a Europa para levar “Terra em Transe” ao Festival de Cannes. O filme é proibido em todo o território nacional em abril, considerado subversivo e ofensivo à Igreja. A proibição é manchete de todos os jornais. É liberado no dia 3 de maio, sua exibição causa polêmica no Rio. Editorial da Tribuna da Imprensa taxa o filme de “antipúblico”. Exibido no Festival de Cannes, “Terra em Transe” ganha os prêmios Luis Buñuel, conferido pela crítica espanhola, e o da FIPRESCI – Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica. No Rio, o filme fica em cartaz durante quatro semanas em dez cinemas. Em São Paulo é recebido com entusiasmo por Paulo Emílio Salles Gomes, Almeida Salles, Rudá de Andrade, Roberto Santos, entre outros. Em sessão para estudantes organizada pelo Teatro Universitário de São Paulo (TUSP) o filme é interrompido por aplausos ao longo de sua exibição. A repercussão do filme no Brasil é relatada nas cartas que Glauber recebe dos amigos. De Cannes, Glauber viaja para Paris. Participa do Festival de Veneza, onde encontra Luis Buñuel. No final de julho exibe “Terra em Transe” em Locarno, na Suíça e Montreal, no Canadá, onde encontra Jean Renoir. No Festival Internacional do Filme de Locarno, “Terra em Transe” recebe o Grande Prêmio e o Prêmio da Crítica. Em Havana, é considerado pela crítica cubana o melhor filme do ano. No Rio, recebe do Museu da Imagem e do Som o Prêmio Golfinho de Ouro de melhor filme. No Festival de Cinema de Juiz de Fora ganha quatro prêmios: melhor filme, menção honrosa de melhor roteiro, melhor ator coadjuvante para Modesto de Sousa, prêmio especial para Luís Carlos Barreto, pela fotografia e produção do filme. No mesmo ano, Glauber participa como corroterista de “Garota de Ipanema”, de Leon Hirszman. Escreve os textos: “A Revolução é uma Eztetyka”; “Teoria eprática do cinema latino-americano”; “Revolução Cinematográfica e Tricontinental” (inspirado na Conferência Tricontinental em Havana).
O Marechal Artur da Costa e Silva é nomeado presidente. Carlos Marighella vai para Cuba como representante da OLAS (Organização Latino Americana de Solidariedade) e cria a ALN (Aliança Libertadora Nacional), organização clandestina de extrema esquerda. Morre Che Guevara, na Bolívia. Régis Debray lança sua Teoria do Foco. “O Rei da Vela”, peça de Oswald de Andrade encenada por José Celso Martinez Corrêa, e “Alegria, Alegria”, música de Caetano Veloso, marcam o início do tropicalismo. Zé Celso dedica seu espetáculo a Glauber. Antônio Callado publica “Quarup”, romance que Glauber pretendia adaptar e cujo projeto aparece ao longo de sua correspondência. São lançados: “Opinião Pública”, documentário de Arnaldo Jabor, “Garota de Ipanema”, de Leon Hirszman, “O Caso dos Irmãos Naves”, de Luiz Sérgio Person. O moderno cinema brasileiro experimenta novos caminhos com “A margem”, de Ozualdo Candeias, “Esta noite Encarnarei no teu Cadáver”, de José Mojica Marins, “Cara a Cara”, de Júlio Bressane. Jean-Claude Bernardet publica Brasil Em Tempo de Cinema, análise sobre o Cinema Novo. Joaquim Pedro de Andrade realiza o documentário “Cinema Novo” para a televisão alemã, com trechos da filmagem de “Terra em Transe”.
1968
O roteiro de “Terra em Transe” é publicado na revista L’Avant-scène du Cinéma de janeiro e na revista alemã Film. Em março, Glauber começa os preparativos para filmar “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro” (Antônio das Mortes), “um sangrento western político […] em que retomo o personagem de Antônio das Mortes, dez anos mais tarde, num sertão modernizado e ainda bárbaro”. Problemas de produção e financiamento atrasam as filmagens em Milagres, na Bahia. Glauber desiste de ir à Paris encontrar o produtor de “O Dragão”, Claude-Antoine, devido as manifestações de maio de 68. Enquanto aguarda as filmagens na Bahia, roda em agosto, no Rio, com uma câmera Éclair 16 mm, “Câncer”, um filme experimental, com situações improvisadas em torno de violência, racismo e sexualidade. Registra as passeatas estudantis contra a ditadura no curta “1968”. Glauber interrompe as filmagens de “O Dragão” para participar da semana do Cinema Novo em Nova York. Lá, encontra Elia Kazan, assiste as filmagens de “The Arrangement” e tenta obter com Kazan os direitos para o cinema de “Wild Palms” romance de William Faulkner que coloca o Herói entre a Dor e o Nada […] Faulkner prefere a “Vidorida” (sobrevivência na luta!)”. O projeto não seria realizado, mas é retomado por Glauber ao longo da sua trajetória. No Brasil, participa de umseminário sobre cinema e televisão na América Latina, organizado pela UNESCO, na Universidade de São Paulo. O encontro traz ao Brasil Roberto Rosselini, Edgar Morin e o cubano Alfredo Guevara. Coproduz “Brasil ano 2000”, longa-metragem de Walter Lima Jr. estrelado por Anecy Rocha, irmã de Glauber e mulher do diretor. Nas cartas, começa a falar em sair definitivamente do Brasil. Projetos: em carta ao produtor Claude-Antoine propõe realizar uma série de televisão tendo o personagem Antônio das Mortes como protagonista. Escreve os argumentos de treze episódios e a apresentação da série. Glauber propõe nesse período os mais diferentes projetos, ainda pensando em filmar alguns deles no Brasil:um musical chamado “O Rei do Bicho”, “uma adaptação bem livre” de uma comédia musical de Brecht, “A ópera dos 3 vinténs”, sobre a vida de um gângster. “Conheço as Escolas de Samba e todos os grandes sambistas e dançarinos. Aqui, para esse gênero de filme não é preciso as coreografias de Hollywood. Nós temos tudo.””Um roteiro de aventuras de espionagem no meio exótico da Amazônia. Estive na Amazônia e tenho um material fabuloso que poderia, REALMENTE, ser mais fascinante que James Bond[…]não quero a direção, não quero nem assinar o roteiro. Quero vender porque tenho necessidade de dinheiro.””Temas tirados dos romances de Miguel Angel Asturias.””O projeto de Calígula, de Camus, para ser rodado nas ruínas de Pompéia”, com o ator Jean-Pierre Léaud.Projeto de “adaptação da peça Galileu Galilei, de Brecht, parauma época futura de polêmica sobre a conquista do espaço, um projeto que pode também interessar Orson Welles”.
Passeata dos 100 Mil no Rio, com estudantes e intelectuais protestando contra a ditadura. O ato institucional n° 5 fecha o Congresso. Explodem as guerrilhas urbanas. Gilberto Gil lança o disco Tropicália e Caetano, a música “É proibido proibir”. Cria-se o Conselho Superior de Censura. O cinema underground faz um clássico, “O Bandido da Luz Vermelha”, de Rogério Sganzerla, e “Jardim de Guerra”, de Neville d’Almeida. O Cinema Novo lança “Fome de Amor”, de Nelson Pereira dos Santos, “O Bravo Guerreiro”, de Gustavo Dahl. Surge o cinema da “Boca do Lixo” paulista, com Carlos Reichenbach, João Callegaro, Antônio Lima. Manifestações estudantis no “Maio de 68” na França.
1969
Glauber propõe ao produtor americano Daniel Talbot adaptar “Amor de Perdição”, romance do português Camilo Castelo Branco, transformando-o numa “tragédia de amor no mundo subdesenvolvido”, com João Gilberto ou Baden Powell no papel principal e música de Tom Jobim. Viaja à Europa para exibir “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro” no Festival de Cannes de 1969, que daria à Glauber o prêmio de melhor diretor, além do prêmio da FIPRESCI, o Luis Buñuel, e o da Confederação Internacional de Cinema de Arte e Ensaio. Glauber atribui a premiação ao entusiasmo de Luchino Visconti, no júri, pelo filme. Na Bélgica, o filme ganha o Primeiro Prêmio do Festival de Cinema de Plovaine. No Brasil, recebe o Troféu Coruja de Ouro e o Prêmio Adicional de Qualidade do Instituto Nacional de Cinema. A revista peruana Hablemos de Cine publica entrevista de Glauber em abril, sob o título “Glauber: o Transe da América Latina”. A revista francesa “Cahiers du Cinéma”publica entrevista de Glauber no número de julho/agosto. Em Cannes, antes da premiação do “Dragão”, Glauber recebe a proposta de Pere Fages, produtor de cinema de Barcelona, para realizar um filme de 100 mil dólares, a ser rodado na Espanha, com total liberdade criativa. O filme seria“Cabezas Cortadas”, e Glauber propõe Orson Welles no papel do ditador latino-americano que seria feito por Francisco Rabal. Viaja a Paris, onde o produtor Claude-Antoine o convida para fazer um filme na África, que seria “O leão de 7 cabeças”. Viaja à Roma e participa do Festival de Veneza. Na Itália, em Roma, participa de “Vent d’Est”, filme de Jean-Luc Godard sobre o cinema político. Glauber faz o papel de um cineasta revolucionário que aponta o caminho do cinema do Terceiro Mundo.Viaja para Brazzaville, no Congo, em setembro, para filmar “O Leão de 7 Cabeças”. De lá escreve para a mãe dizendo “estou na África. aqui não tem tanto bicho assim. tem muito calor. é igual à Bahia. o pessoal é ótimo. o trabalho é difícil”. Roda o filme em 22 dias. No meio das filmagens o ator francês Jean-Pierre Léaud tem um ataque histérico, os congoleses acham que faz parte do filme. Em carta para o cubano Alfredo Guevara, do ICAIC, pede que mostre “O Dragão” a Fidel Castro e recomenda o guerrilheiro IItoby Alves Correa, “o Hélio”, na estadia dele em Cuba.Médici assume a presidência.
É criada a Embrafilme. A repressão leva ao fechamento dos cineclubes. “Macunaíma”, de Joaquim Pedro de Andrade, é o grande sucesso do Cinema Novo. São lançados “Os Herdeiros”, de Cacá Diegues, “Brasil ano 2000”, de Walter Lima Jr.“Memória de Helena”, de David Neves, “Copacabana me Engana”, de Antônio Carlos Fontoura. O cinema underground marca presença com “O Anjo Nasceu” e “Matou a família e foi ao Cinema”, de Júlio Bressane, “Meteorango Kid”, de André Luís Oliveira, “Meu Nome é Tonho”, de Ozualdo Candeias. Reginaldo Farias faz “Os Paqueras”. O Cinema Novo se recusa a participar do Festival de Cinema do Rio de 1969 como protesto político. Durante o festival o cineasta Joaquim Pedro de Andrade é preso e solto por pressão das personalidades internacionais presentes ao evento. A ALN e o MR-8 seqüestram o embaixador americano em troca da libertação de quinze presos políticos. Carlos Marighella lança o Minimanual do guerrilheiro urbano. O capitão Lamarca passa à luta armada.
1970
Glauber viaja para a Catalunha, na Espanha, onde filma “Cabezas Cortadas”, entre fevereiro e março. Vai a Nova York acompanhar a estreia de “O Dragão”. Volta para a Espanha, onde conclui a montagem de “Cabezas Cortadas”. No Brasil, a censura exige que o filme, falado em espanhol e catalão, seja dublado em português para receber certificado de filme brasileiro. “O Leão de 7 Cabeças” é recusado pela Comissão de Seleção do Festival de Cannes. Em julho, “Cabezas Cortadas” é exibido pela primeira vez no Festival de San Sebastian e em agosto é lançado no Festival de Veneza. Os dois filmes geram polêmicas e críticas entusiasmadas e indignadas. Glauber não vai aos festivais. Lançados na França, os filmes não são bem recebidos. Volta ao Brasil e, em novembro, passa a escrever para o semanário O Pasquim. Viaja para Petrópolis, Cabo Frio e Bahia. Rompe seu relacionamento como Rosa Maria Penna. Conhece Letícia Maria Moreira de Souza. O crescimento da repressão e a prisão de Walter Lima Jr. o levam a desistir de trabalhar no Brasil. Entre os projetos não realizados está um filme adaptado do romance “Terras do Sem-fim”, de Jorge Amado para a RAI, e uma adaptação do romance “Menina Morta”, de Cornélio Penna. Passa o Natal no Rio. Numa carta do Rio, de agosto de 1970, à produtora Mapa Ltda. propõe um filme baseado em “Quincas Berro d’Água”, de Jorge Amado, com direção de Glauber e orçamento de 150 mil dólares.
Torna-se obrigatória a exibição de filmes brasileiros 112 dias por ano, depois 98 dias. Guerrilheiros sequestram os embaixadores da Alemanha Federal, Suíça e Japão em troca da libertação de presos políticos. O Brasil ganha a Copa de 70, a euforia é capitalizada pela ditadura. Os filmes do Cinema Novo são marcadamente alegóricos: “Azyllo Muito Louco”, de Nelson Pereira dos Santos, “Os Deuses e os Mortos”, de Ruy Guerra, “Pindorama”, de ArnaldoJabor. Os cineastas Júlio Bressane e Rogério Sganzerla criam a produtora “Bel-Air”, e vão para o exílio. O cinema underground produz “O Pornógrafo”, de Callegaro, “Orgia ou O homem que deu Cria”, de Silvério Trevisan, “Jardim de Espumas”, de Luiz Rosemberg Filho. Walter Lima Jr. faz “Na boca da Noite”, que, mal lançado no Rio, é pouco visto. A censura proíbe “Prata Palomares”, de André Faria, e “O país de São Saruê”, documentário de Vladimir de Carvalho.
1971
Viaja para Nova York em janeiro e inicia um exílio que duraria cinco anos, no momento em que a repressão e perseguição políticas tornam- se mais duras. Instala-se num apartamento do Village, de Fabiano Canosa. Ainda em janeiro, é convidado para uma conferência na Columbia University. É publicada a edição espanhola de Revisão Crítica do Cinema Brasileiro. Em maio, Glauber vai para Santiago do Chile, onde inicia, com Norma Benguell e Zózimo Bulbul, um documentário com o título provisório de “Definição ou Estrela do Sol”, sobre os exilados brasileiros. O filme começava com Glauber assoviando uma versão desafinada do Hino Nacional. Não foi concluído e o material filmado foi perdido. O filme era produzido por Renzo Rosselini e pela Tv Nacional do Chile. Glauber viaja para Buenos Aires e Londres, onde se encontra com Caetano Veloso e outros exilados e segue para Paris. Vai a Munique, onde encontra o cineasta alemão Peter Fleischmann. Viaja para Roma. Atua no filme “O Rei dos Milagres ou Tatu Bola”, longa-metragem de Joel Barcelos e Gianni Barcelloni em que faz o papel de um governador. Viaja pelo Marrocos com Letícia Moreira de Souza e Mossa (Flora Bildner). Filma a viagem em super-8 (Letícia e Mossa no Marrocos). Volta a Roma, vai a Paris e viaja para Cuba em novembro, propondo filmar “América Nuestra” com o apoio do ICAIC. Recomenda o projeto de Marcos Medeiros, “História do Brasil”. “América Nuestra” não é realizado e Glauber se engaja na produção de “História”, do qual seria codiretor. Em Cuba, casa-se com a jornalista Maria Tereza Sopeña. É publicado em Madri, pela Editorial Fundamentos, Revisión Critica del Cine Brasileño, versão em espanhol do livro de Glauber.
O ex-campeão e guerrilheiro Carlos Lamarca é morto na Bahia. São lançados Como era “Gostoso o Meu Francês”, de Nelson Pereira dos Santos, e “A Casa Assassinada”, de Paulo César Saraceni. O cinema underground ou marginal ganha uma retrospectiva na Cinemateca do MAM (RJ). A disputa Cinema Novo x Cinema Marginal se acirra. São lançados “O Capitão Bandeira contra o dr. Moura Brasil”, de Antônio Calmon, e “Bang Bang”, de Andrea Tonacci.
1972
Em Cuba, com a impossibilidade de filmar “América Nuestra”, Glauber se dedica ao projeto “História do Brasil”, uma montagem com trechos de 47 filmes brasileiros arquivados no ICAIC. Consegue autorização para viajar a Roma e Paris para comprar cerca de 2 mil livros para a pesquisa e texto do filme, que só viria a ser concluído dois anos mais tarde, em Roma. Em Cuba entrevista e acompanha o treinamento de guerrilheiros. Encontra exilados e lideranças da esquerda: Vladimir Palmeira, Lizt Vieira, José Dirceu, Fernando Gabeira, Onofre Pinto. Encontra-se com Régis Debray e Miguel Arraes, que visitam Havana. Escreve o prólogo de “Grande Sertão Veredas” para a edição cubana. Permanece em Cuba até dezembro de72. Viaja pela América Latina: Buenos Aires e Montevidéu, na Argentina; Punta del Este, no Uruguai, onde encontra-se com o ex-presidente João Goulart e com a família (a mãe Lúcia Rocha, a irmã Anecy, o cunhado, Walter Lima Jr., e a filha Paloma). Vai a Lima e Machu Picchu, no Peru, viaja a Bogotá, Cartagena, Barranquilla e Panamá. Na viagem pela Colômbia, Glauber conhece, em Bogotá, Paula Gaitán, ainda adolescente, com quem iria se reencontrar no Brasil em 1976 e com quem viveria até sua morte, em 1981. Glauber vive em Paris com a cubana Maria Tereza. Em carta para Zelito Viana de 1974, retraça o roteiro dessa época: “curti os melhores momentos de minha vida exilada, reencontrando a minha família e Jango em Punta del Este. Andei pelo Peru, Argentina, sobrevoei o “belorrizonte” chileno que já tinha sacado em 71, aprendi um pouco de política latino-americana com Darcy e outros conhecimentos, entrei pela Colômbia, saí em Cartagena `criajando’ na Semana Santa pra ir ver o túmulo de Bolívar em Barranquilla, terra onde Gabo escreveu “Macondo”. Passei dois dias no Panamá, cheguei a New Yorque onde tive um concerto privado com João Gilberto, revi Francis, cheguei a Paris, montei um quarto studio com Tereza no estilo último tango e escrevi o roteiro de “A Idade da Terra” sob pagamento de um prêmio de dez mil dos produtores árabes (Raman), sionistas (Braunsberg), debaixo do maior esporro de minha vida, culminando com a violentíssima separação de Tereza, morte de enciumada Regina [Rosemburgo], reaparição de Rosinha [Rosa Maria Penna]”.Em carta de julho para Cacá Diegues comunica que montou “Câncer”, filmado em 68: “imagina que terminei o “Câncer” que está excepcional, mas a alfândega francesa pegou a cópia do negativo, tá dando um bolo filho da puta pra liberar. Depois de quatro anos só me faltava esta, ou este filme vai estourar ou nunca deve ser visto. que urucubaca!”.
A ditadura organiza as comemorações do 150° aniversário da Independência do Brasil. O poeta Torquato Neto, um dos porta-vozes do tropicalismo, se suicida. Morre Leila Diniz. A obrigatoriedade de exibição dos filmes brasileiros cai para 84 dias por ano. Acontece o I Congresso da Indústria Cinematográfica Brasileira, no Rio de Janeiro. São lançados: “Independência ou Morte”, de Carlos Coimbra, filme histórico-ufanista; A “Viúva Virgem”, pornochanchada de Pedro Rovai; “Os Inconfidentes”, de Joaquim Pedro de Andrade, “São Bernardo”, de Leon Hirszman; o documentário “Migrantes”, de João Batista de Andrade. Acontece a primeira jornada do Curta-Metragem em Salvador.
1973
Glauber vive entre Paris e Roma. Em 7 de fevereiro, a produtora Mapa é informada de que ` o filme intitulado “Cabeças Cortadas”, submetido à censura em janeiro do ano anterior, teve negada a autorização para ser exibido, por despacho do Diretor da DCDP [Divisão de Censura de Diversões Públicas] […] “por capas [sic] de provocar incitamento contra regime vigente, a ordem pública, suas autoridades e seus agentes”. Recebe em abril carta do presidente do Chile, Salvador Allende, cumprimentando-o pelo apoio público ao seu governo. Os negativos de “O Dragão” e “Terra em Transe” são queimados em um incêndio nos laboratórios na França, na noite de 25 para 26 de junho. Em setembro, escreve de Roma a Alfredo Guevara, explicando que se separou de Tereza: “Não houve nenhuma ruptura política entre eu e ela [sic]. As crises de inadaptação de temperamentos se agravam e a separação nestes casos é melhor solução. Tereza é uma mulher muito inteligente, culta e de grande sensibilidade. É uma revolucionária e encerra as grandes contradições de uma mulher cubana de sua geração”. Na Itália, participa do Festival de Pesaro e se estabelece em Roma, na casa do produtor Gianni Barcelloni, para montar “História do Brasil”, com ajuda do produtor Renzo Rosselini e participação da Radiotelevisione Italiana (RAI). Em carta de agosto, para João Carlos Rodrigues, Glauber escreve sobre os bastidores da política brasileira, informações que explicam seu apoio à política de abertura do presidente Geisel em 74. Encontra-se com a pesquisadora Raquel Gerber em Roma e sugere uma coletânea sobre sua obra a partir de textos publicados na Europa e EUA. Escreve para a RAI o roteiro de “O Nascimento dos Deuses” (La Nascita Degli Dei), “um filme de seis horas sobre as civilizações oriento-ocidentais”, dividido em duas partes: Ciro, lua do Oriente e Alexandre, sol do Ocidente. O filme não seria realizado. Em carta para Paulo Emilio, resume assim o período: “O ano de 73 naEuropa foi a luta contra a fome e acabar o filme “História do Brasil”, interrompido várias vezes para escrever roteiros pré-pagos por produtores (esta de escrever roteiro pago é o que tem me mantido embora os projetos sejam infilmáveis porque eu mesmo desisto: isto se passou umas quatro vezes etc.)”. Em novembro revê o ex-presidente João Goulart em Paris. E publicado na França o livro Le Cinéma Novo n° 2/Glauber Rocha, coletânea de ensaios sobre Glauber lançado na coleção Études Cinématographiques, n” 97/99. Ed. Minard.
Primeiro Festival de Cinema de Gramado, no Rio Grande do Sul. Paulo Emilio Salles Gomes publica o ensaio Cinema: Trajetória no Subdesenvolvimento. Os cineclubes brasileiros voltam a se organizar. Forma-se a ABD (Associação Brasileira de Documentaristas). São lançados: “Uirá, um Índio em Busca de Deus”, de Gustavo Dahl; “Toda Nudez será Castigada”, de Arnaldo Jabor; “Joana Francesa”, de Cacá Diegues; “Os Condenados”, de Zelito Viana. No Chile, o presidente Salvador Allende é morto durante o golpe militar de setembro.
1974
Em março, a revista Visão publica carta em que Glauber define o General Golbery do Couto e Silva como “gênio da raça”, e afirma sua crença no processo de abertura política conduzido pelo novo presidente Ernesto Geisel e pelos militares. A carta provoca polêmica e acusações. Em carta anterior, do mesmo período, de Roma, para Zuenir Ventura, diz: “eu pobre me viro muito ligado aí na pátria: se tiver eleições me arranje um partido que me candidato a Presidente”. René Gardies publica na França, pelas Éditions Serghers, o livro Glauber Rocha, tirado da sua tese de doutorado defendida em Paris. Glauber se apaixona pela atriz francesa Juliet Berto. Vai a Lisboa, Cannes, Capri. Em junho de 74, escreve, de Roma: “Casei com “La Chinoise” Juliet Berto. Desta vez é para sempre”. Em Roma, conclui “História do Brasil”. O ICAIC (Instituto Cubano de Arte e Indústria) retira seu apoio e nome dos créditos do filme por discordâncias estéticas e políticas. Começa a preparar a produção de “O Nascimento dos Deuses”, com locações previstas para o Egito e Grécia. Em julho recebe a visita da filha Paloma Rocha em Paris. Filma uma viagem em super-8 com Juliet Berto. Em agosto de 74, escreve: “vou para o Egito com Juliet fazer as locações e orçamento e em setembro preparo aqui tudo pra filmar em outubro. Se, por imprevistos, o filme não sair, vou logo pra N. Yorque com o outro roteiro, “A Idade da Terra”, e com dinheiro pra viver aí até montar a produção”. Viaja para o Egito e Grécia. Do Egito, manda um cartão postal para a família que diz: “Estou aqui com Juju [Juliet Berto] fazendo locações. O Egito é um Nordeste. Tudo bem. Agora vou pegar o avião para Babilônia. Voltarei no final de 75. Retorna a Romae a Paris ainda em 74. Sob o impacto do assassinato do cineasta Pier Paolo Pasolini, no dia 2 de novembro, escreve para O Pasquim o artigo “Amor de macho”. Outros projetos: filmar “O Capital”, com Orson Welles no papel de Karl [Marx] e Dirk Bogarde no papel de Frederico [Engels] na velha Londres proletária monárquica colonialista do século passado”.
O general Ernesto Geisel assume a presidência da República. Roberto Farias assume a direção da Embrafilme. São lançados: “O amuleto de Ogum”, de Nelson Pereira dos Santos; “Guerra Conjugal”, de Joaquim Pedro de Andrade; “Rainha Diaba”, de Antônio Carlos Fontoura. O filme “Iracema”, de Jorge Bodansky e Orlando Senna, é proibido. O cinema experimental ressurge com “Triste Trópico”, de Arthur Omar, e “O Rei do Baralho”, de Júlio Bressane. Paulo Emilio Salles Gomes publica Humberto Mauro, Cataguases, Cinearte.
1975
Em janeiro viaja para o México para levantar coprodução para “A Idade da Terra”. Negocia também uma coprodução com Equador e Venezuela. Glauber pretendia rodar “A Idade da Terra”, “metade no México ou no Equador ou na Venezuela e metade nos Estados Unidos: San Francisco e Nova York”. Não consegue o financiamento pretendido. Em Roma, filma “Claro”, com Juliet Berto, Carmelo Bene e intervenções do próprio Glauber, entre abril e maio. “Claro” estreia em Roma em outubro e gera polêmica. Não é bem recebido no Festival de Taormina. Exibido no Festival de Paris, em novembro, o filme recebe críticas violentas. O crítico francês Jacques Scliar, do Le Monde, escreve: “Infelizmente o desprezo do autor pela linguagem “burguesa” e seu gosto pela imprecação o conduzem dessa vez para além do suportável”. Jean-Louis Bory, do Nouvel Observateur, fala em “narcisismo confuso e sobretudo insuportável”. Em carta para Alfredo Guevara de novembro desse ano, escreve: “Realizei um filme em Roma, “Claro”, que obteve ótimas e péssimas críticas. Um filme novo. Quero que você veja. Filmei em 11 dias, por 50 mil dólares, 9 mil metros de filme”. Na coleção “Il Castoro Cinema”, da editora La Nuova Italia, de Florença, o número 13 é dedicado a um estudo da obra de Glauber Rocha, de autoria de Cinzia Bellumori. Em novembro recebe um bilhete de Orson Welles dispondo-se a encontrá-lo em Paris. Projetos: em carta para Cacá Diegues, de agosto, escreve: “Volto a Roma para filmar “Revolução”. Queria fazer em Paris, mas não dá”. Não há outras referências ao projeto. Escritos: de acordo com carta do editor Ênio da Silveira, de novembro, Glauber preparava um romance de 750 páginas chamado“História do Brasil” (provavelmente fruto das pesquisas para o filme de mesmo nome); e um volume intitulado “Filmes de Glauber Rocha”, livro com os roteiros de seus filmes; e mais “Alexandre, o Grande”, livro de quatrocentas páginas (provavelmente parte da pesquisa ou do roteiro de “O Nascimento dos Deuses”, escrito para a TV italiana). Glauber começa a articular sua volta ao Brasil. Nas cartas aos amigos menciona sempre as dificuldades financeiras. Escreve a João Carlos Teixeira Gomes, em novembro, sobre a possibilidade de tornar-se cor respondente internacional do jornal da Bahia e anuncia: “Se voltar ao Brasil, voltaria à Bahia, onde quero ser Governador, conforme disse no Pasquim”. Em dezembro escreve para PeterB. Schumann sobre a possibilidade de trabalhar na Alemanha. Prepara seu livro sobre o Cinema Novo (A Revolução do Cinema Novo). Separa-se de Juliet Berro, na virada de 1975 para 1976. Vai para o Convento Saint-Jacques, da ordem dos dominicanos, em Paris, por sugestão do amigo Itoby Alves Correa, temeroso de que as perseguições ao terrorista Chacal levassem a polícia francesa aos guerrilheiros e militantes latino-americanos sediados em Paris. Propõe a Julíet Berto que vá com ele para os EUA.
Torna-se obrigatória a exibição de filmes brasileiros 112 dias por ano. O Brasil chega a 3276 salas de cinema. Filmes: “O Rei da Noite”, de Hector Babenco, “Lição de Amor”, de Eduardo Escorel. Documentários: “Tarumã”, de Aloysio Raulino, “Trem Fantasma”, de Alain Fresnot, Retomada do Festival de Brasília depois de três anos. O Festival de Pesaro dedica uma mostra ao cinema brasileiro. Assassinato do jornalista Wladimir Herzog. Crescem as publicações da imprensa alternativa. É publicado Crônica do Cinema Paulistano, de Maria Rita Galvão.
1976
Glauber viaja para Moscou em janeiro, onde fica duas semanas. De lá escreve para Paulo Emílio contando sua passagem pela Georgía, sua visita ao acervo de Eisenstein, em Moscou, e um encontro com Luís Carlos Prestes: “O Cavaleiro da Esperança é muito inteligente, bem humorado, forte, ativo e cultíssimo apesar de seus 78 anos. Causou-me excelente impressão, foi uma entrevista informal que algum dia publicarei”. Em Moscou tenta financiamento para um filme intitulado O “Nascimento da Terra” (com elementos de projetos anteriores: “América Nuestra”, “O Nascimento dos Deuses” e “A Idade da Terra”). Escreve: “Estou disposto a voltar ao Brasil mesmo que seja para enfrentar um processo”. Recebe convite do produtor Daniel Talbot para ir para a Califórnia apresentar seus filmes emuniversidades. Na carta de Talbot, de 15 de janeiro, há um bilhete manuscrito de Francís FordCoppola para Glauber respondendo que não poderia produzir “A Idade da Terra” nemajudá-lo nos EUA, pois iria filmar nas Filipinas (Apocalipse Now). Projeto: em carta a Peter B. Schumann, de janeiro de 1976, diz: “Tenho um tema para Paris: um documentário sobre os desempregados do terceiro mundo em Paris: eu, os negros, os árabes, os sul-americanos…é um filme-verdade, improvisado. Eu, cineasta desempregado, faço entrevistas com outros terceiro-mundistas desempregados”. Em carta para Cacá Diégues, de janeiro, diz: “Terminei também “Hestória Dialética da Matéria”, agora sou escritor filósofo”. Glauber vai para a Califórnia, onde apresenta seus filmes nas Universidades de Berkeley, Stanford e Fresno. Nos EUA, tenta levantar financiamento para os projetos: “A Idade da Terra”, “O Nascimento dos Deuses”, e para a adaptação de “The Wild Palms”, de Wíllíam Faulkner. Em Los Angeles, Glauber tem o passaporte liberado pelo Itamaraty para voltar ao Brasil, por intervenção do general Golbery do Couto e Silva. De Los Angeles escreve para Jorge Amado: “Estou terminando meu livro escrito nestes cinco anos de exílio: chama “Universo”, deve ficar com quatrocentas páginas e acho que está muito bom… fiei uma transação literária com você, com Rosa, Zé Lins, Graciliano”. Volta ao Brasil em 23 de junho, depois de cinco anos de exílio. Em setembro, do Rio, escreve para Raquel Gerber: “saiba que tenho ao todo treze livros pra publicar, entre o de cinema (500 páginas), um romance (Universo), um Romanceiro do sertão (300 páginas), um Fantástico Folhetim (1968) e o diário do exílio, além dos poemas e do Mapa da Bahia, que são todos meus poemas e contos e peças que não publiquei. […] vou filmar um Globo repórter chamado “Introdução à Villa-Lobos”, pra ser lançado no dia quinze de novembro. pedi 5 mil dólares por meia hora e liberdade total. Pagaram sem pedir roteiro. […] montarei as óperas “O Guarani” e a “Yerma” de Villa-Lobos-Lorca e ficarei morando na Bahia”. Conhece, no Rio, Maria Aparecida Braga (Cuca). Filma o velório do pintor Di Cavalcanti, em 27 de outubro, no Museu de Arte Moderna. As filmagens do enterro causam polêmica e levariam mais tarde à interdição do filme pela justiça a pedido da filha adotiva do pintor, Elizabeth Di Cavalcanti. Escreve em 28 de outubro para João Carlos Rodrigues contando sobre as filmagens e informa problemas de saúde: “estive três vezes em hospital por problemas psico-gástricos”.
João Goulart morre no exílio. Juscelino Kubitschek morre num acidente de carro. O bispo de Nova Iguaçu, no Rio, é sequestrado. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), no Rio e o Cebrap, em São Paulo, sofrem atentados. É criado o Conselho Nacional do Cinema (Concine). “Dona Flor e seus Dois Maridos”, de Bruno Barreto, faz 10 milhões de espectadores, “Xica da Silva”, de Cacá Diegues, chega aos 3 milhões de espectadores. São lançados: “A Queda”, de Ruy Guerra e Nelson Xavier, “Aleluia Gretchen”, de Sylvio Back, os documentários “Iaô”, de Geraldo Sarno, “A Pedra da Riqueza”, de Vladimir de Carvalho, “A independência de Moçambi que”, de José Celso Martinez Corrêa. É publicado “A Bela Época do Cinema Brasileiro”, de Vicente de Paula Araújo.
1977
Morre Anecy Rocha, em 27 de março, no Rio de Janeiro, ao cair no poço de um elevador. A morte da irmã deixa Glauber profundamente abalado. Interrompe o romance “Riverão Sussuarana” e incorpora a tragédia ao texto do livro. O curta-metragem “Di” com imagens do funeral do pintor Di Cavalcanti ganha o prêmio especial do júri no Festival de Cannes. Glauber escreve: “é o filme mais moderno e revolucionário dos anos 70 no mundo. É novo em enquadramento, em som, interpretação, montagem – uma novidade Barroca-épica”. Realiza o média-metragem “Jorjamado no Cinema”, produzido pela Embrafilme para ser exibido na TV. Nasce, no dia 4 de agosto, Pedro Paulo de Araújo Rocha, filho de Glauber e Maria Aparecida de Araújo Braga. Glauber reencontra a colombiana Paula Gaitán em férias no Brasil e os dois passam a viver juntos. Viaja para Brasília e começa a colaborar com o jornal Correio Braziliense. Torna-se amigo dos jornalistas Fernando Lemos e Oliveira Bastos. É lançada a coletânea Glauber Rocha, organizada por Raquel Gerber para a Editora Paz e Terra, com ensaios de autores brasileiros e estrangeiros sobre Glauber. Cinzia Bellumori lança na Itália Glauber Rocha (Florença, La Nuova Italia). Glauber passa a utilizar uma ortografia própria nos seus textos, substituindo as letras c, i e s por K, Y, Z e X. Textos antigos são “corrigidos” pela nova ortografia.
Cresce a campanha pela anistia política. São lançados: “A Dama do Lotação”, de Neville d’Almeida (6,5 milhões de espectadores), “Lúcio Flávio”, o Passageiro da Agonia, de Hector Babenco (5 milhões de espectadores), “Os Trapalhões nas Minas do Rei Salomão” (5,7 milhões de pagantes). Outros filmes: “Tudo Bem”, de Arnaldo Jabor, “Chuvas de Verão”, deCacá Diégues, “Mar de Rosas”, de Ana Carolina, “Ladrões de Cinema”, de Fernando Cony Campos, “Tenda dos Milagres”, de Nelson Pereira dos Santos, “Coronel Delmiro Gouveia”, de Geraldo Sarno, “Gordos e Magros”, de Mário Carneiro, “Vereda Tropical”, de Joaquim Pedro de Andrade, “Vida Severina”, de Zelito Viana. Morre, em setembro, Paulo Emilio Salles Gomes.
1978
Glauber filma “A Idade da Terra” em Salvador, Brasília e Rio de Janeiro. Em Salvador, as filmagens provocam polêmicas e sofrem interdições. Durante as filmagens da procissão de Conceição da Praia, um padre católico alega que Jece Valadão, ator de chanchadas, não podia fazer o papel de Cristo; o diretor cultural do Museu de Arte Sacra da Bahia, Valentim Calderón, proíbe que Glauber filme com atores dentro do museu. Em 19 de janeiro, nasce Erik Aruak Gaitán Rocha, filho de Glauber e Paula Gaitán, durante as filmagens de “A Idade da Terra”, em Brasília. Glauber lança-se candidato. Em carta para Jorge Amado, escreve: “tenho ambições políticas: ser Ministro das Relações Exteriores ou da Educação e Cultura (acho que esse ministério deve ser dividi do – quero ser ministro da Cultura) e/ou governador da Bahia, suceder o próximo e, naturalmente, Presidente, mas com eleições diretas”. O romance “Riverão Sussuarana”, de Glauber, é publicado pela Editora Record. “Cabezas Cortadas” é liberado sem cortes pela Censura Federal, em outubro.
Greve dos metalúrgicos no ABC de São Paulo. Torna-se obrigatória a exibição de filmes brasileiros 133 dias por ano e a exibição de um curta-metragem brasileiro como complemento dos filmes estrangeiros. São lançados: “Anchieta, José do Brasil”, de Paulo César Saraceni, “A Lira do Delírio”, de Walter Lima Jr.. “A Batalha dos Guararapes”, de Paulo Thiago, “Crônica de um Industrial”, de Luiz Rosemberg Filho. A Embrafilme produz uma série de filmes para televisão, entre eles “Joana Angélica”, de Walter Lima Jr. Os filmes não são exibidos na TV.
1979
Nasce, em 19 de março, Ava Pátria Yndia Yracema Gaitán Rocha, filha de Glauber e Paula Gaitán. Glauber edita um suplemento sobre a Paixão de Cristo no Correio Braziliense, na sexta-feira da Paixão. “Cabezas Cortadas” estréia em junho no Rio de janeiro, precedido pelo curta-metragem “Di”. A filha do pintor, Elizabeth Di Cavalcanti, proíbe a exibição do curta. Glauber passa a colaborar em diferentes jornais. Além do Pasquim e do Correio Braziliense, escreve regularmente para a Folha de S. Paulo e Jornal do Brasil. Tenta obter uma bolsa deestudo na Inglaterra para “uma Tese sobre a Dramaturgia de Oscar Wilde e possivelmente a montagem de uma de suas peças e consequente filmagem Tv etc.”. Escreve em julho para José Guilherme Merquior: “Além do projeto sobre Oscar Wilde, há um roteiro embrionário sobre Marx e Engels… um filme sobre as relações da Economia com a Filosofia e uma montagem do Fausto de Marlowe… além do mais, minhas macumbas me levaram do terreiro da Umbanda às feitiçarias de [William] Blake”.É convidado por Fernando Barbosa Lima para participar do programa “Abertura”, na Tv Tupi, em que entrevista intelectuais, políticos e artistas, com grande repercussão. Em carta de agosto, o editor Ênio Silveira se propõe a publicar os livros inéditos de Glauber e menciona a entrega do romance “Jango”, com cerca de quatrocentas páginas, ficcionando a vida e ideias do presidente João Goulart. Em setembro, Glauber protesta por não ter sido convidado para o Festival de Brasília. Acusando o convidado francês Jean Rocch (cineasta que admirava) de “colonizador” e “agente de Quai d’Orsay”, o escândalo acontece na sede do festival. Em dezembro escreve para Alfredo Guevara: “Estou com 40 anos, idade ótima. Vivo finalmente com o amor de minha vida, uma poeta colombiana, Paula Gaitán, e tenho dois filhos, além de Paloma que tem 18 anos, e é atriz e diretora de teatro e cinema”. “Estarei em Cannes. Pretendo em seguida filmar na Espanha, CARMEN – porque a ópera de Mozart Losey é uma mierda e quero viver unos tiempos em Sevilha”.
O general João Batista Figueiredo torna-se presidente da República. Fim do AI-5. Repressão às greves operárias. Miguel Arraes, Leonel Brizola e Luís Carlos Prestes, entre outros, voltam do exílio. Celso Amorim torna-se diretor da Embrafilme. Surge a Cooperativa Brasileira de Cinema, no Rio. São lançados: “Bye Bye Brasil””, de Cacá Diegues, “República dos Assassinos”, de Miguel Faria Jr., “Muito Prazer”, de David Neves. O cinema reflete o momento político com “Braços Cruzados”, “Máquinas Paradas”, de Roberto Gervitz e Sérgio Tolledo Segall; “Greve!”, de João Batista de Andrade; “Greve de Março”, de Renato Tapajós. Documentários: “Terra dos Índios”, de Zelito Viana; “Mito e Metamorfose das Mães Nagô”, de Juana Elbein; “Em nome da Razão”, de Helvécio Ratton. “Limite”, clássico de Mário Peixoto, é recuperado e lançado. Jean-Claude Bernardet publica Cinema Brasileiro: Propostas para uma História.
1980
Morre Adamastor Bráulio Silva Rocha, pai de Glauber, em 6 de junho. Glauber participa da Mostra Internacional de Cinema de Veneza, onde “A Idade da Terra” é exibido em 2 desetembro. O filme gera polêmica e é mal recebido pela crítica. Louis Malle recebe o Leão de Veneza com Atlantic City, e Glauber acusa o cineasta e a direção do festival de fascistas e, por sua vez, é acusado por suas posições políticas no Brasil. O escândalo em Veneza leva à retirada de “A Idade da Terra” do Festival de Cinema Ibérico e Latino-Americano de Biarritz. Em entrevista ao jornalista Pedro del Picchia, de setembro/outubro, Glauber desabafa: “Saí de Veneza vomitando. Passei dois dias em Florença com uma febre alta. Estou doente em Roma. Roma está fedendo, a cidade está cheia de marginais, está suja. […] Minha relação com o cinema acabou em Veneza. Aproveito para dar um adeus definitivo à vida cultural brasileira. Vocês não me verão mais. Nunca”. Em dezembro, Glauber viaja para Paris para acompanhar uma mostra dos seus filmes num festival de cinema latino-americano. Projetos: Em carta para Celso Amorim, de 30 dezembro, de Paris, escreve: “decido-me com Claude-Antoine e outros produtores sobre o roteiro atual: “O Império de Napoleão”, cuja primeira versão escrevi no Brasil e estou fazendo a segunda para se passar na Paris de hoje. Este é o filme que vou fazer este ano, embora não saiba como […] Se eu voltasse ao Brasyl, filmaria também “O Império de Napoleão” com o título de “O Império de D. Pedro II”. Mas este painel que monta Flaubert-Stendhal-Picasso-Hitchcock é uma descoberta nova e especial’ para a França”. O filme, “O Império de Napoleão”, seria uma livre adaptação de um livro de Stendhal. Livros: “Existem uns 5 a 6 livros (romances, peças, poesias, entrevistas, críticas de ‘artes’, ‘letras’ e ‘políticas’) para serem publicados, quase todos mais ou menos prontos, cujos originais se encontram com a minha mãe na Bahia. Além disto, cerca de 20 roteiros ‘esboçados’ para cinema e TV. Estive aqui com Aluísio Magalhães, de quem sou velho amigo, e dei-lhe 8 laudas relatando todos meus filmes, livros e projetos. Manifestei-lhe o desejo de fundar uma Empresa de Comunicações em Paris (com ramal em Lisboa) e dar início à minha produção”. Ainda nesta carta, Glauber escreve: “vivo pobremente e angustiado pela pobreza e por isto doente: passei 15 dias vomitando com dores terríveis e Aluísio Magalhães encontrou-me bastante abalado”. Passa o Ano-Novo em Vincennes com amigos parisienses, na casa da crítica de cinema e amiga francesa Sylvie Pierre.
São produzidos 103 longas-metragens brasileiros. Os filmes “Eu te Amo”, de Arnaldo Jabor; “Pixote”, de Hector Babenco; “Gaijin”, de Tizuka Yamasaki, e “Os anos JK”, de Sílvio Tendler, fazem sucesso. São lançados: “Cabaret Mineiro”, de Carlos Alberto Prates Correia, “O Homem que Virou Suco”, de João Batista de Andrade, “Brasília segundo Feldman”, de Vladimir de Carvalho. Nova greve dos metalúrgicos do ABC paulista.“Eu sou ou não sou o inconsciente coletivo?”Glauber Rocha.
1981
Em janeiro, Glauber organiza, em Paris, uma exibição de “A Idade da Terra” para cerca de cinquenta pessoas, na sala Gaumont-Gare, de Lyon. Em fevereiro, viaja para Portugal, onde é recebido pelo cineasta português Manuel Carvalheiro, diretor do documentário “Abecedário”, que inclui longo depoimento de Glauber gravado em Paris. Vai para Sintra, onde cruza com o presidente João Batista Figueiredo. Em abril, a Cinemateca Portuguesa exibe uma mostra de seus filmes, interrompi da por um incêndio que destrói cópias dos filmes. Em Sintra, Glauber recebe alguns amigos, mas se mantém isolado com a família. De Sintra, em abril, escreve para Cacá Diegues: “Paula e os meninos florescem… Paloma e minha mãe na Bahia… e tenho dois filhos cariocas, Pedro e Daniel [Pedro Paulo de Araújo Rocha, filho de Glauber com Maria Aparecida de Araújo Braga e Daniel Jardim Rocha, filho de Glauber e Marta Jardim, cuja paternidade foi ganhada na justiça]. […] sinto-me mais ou menos em casa, boa cama, boa mesa, bom clima, trans romantismo…”. Nesta carta, refere-se à peça sobre João Goulart: “escrevi a peça “Jango”, deixei os originais com Luiz Carlos Maciel, está ainda incompleta, mas é Teatro e não cinema”. Em abril, Glauber dá um longo depoimento em vídeo ao ator Patrick Bauchau, que filmava com Wim Wenders em Portugal, intitulado “Sintra é um belo lugar para morrer”. Encontra-se com Wim Wenders e Samuel Fuller. Dá entrevista ao cineasta Manuel Carvalheiro. Com a saúde abalada há alguns meses, Glauber tem como diagnóstico uma pericardite viral. Em carta para Celso Amorim, de abril, escreve: “Aqui tudo mais ou menos. Estou me recuperando da pericardite e escrevendo o roteiro “O Império de Napoleão””. Em carta de 16 de junho para o produtor americano Tom Luddy, Glauber registra: “Estou escrevendo um novo roteiro: “O Destino da Humanidade”. Vou acabar no dia 20 de agosto”. Em 6 de agosto seu estado se agrava e é internado num hospital próximo a Lisboa por complicações bronco pulmonares. Em estado de extrema gravidade é trazido de volta ao Brasil na noite do dia 20, sem acompanhamento médico ou soro. Chega ao Rio de Janeiro no dia 21 e recebe soro ainda na enfermaria do Aeroporto do Galeão: É levado para a Clínica Bambina, em Botafogo. Morre às 4 horas da manhã do dia 22 de agosto. Glauber é velado no Parque Lage, cenário de “Terra em Transe”, em meio a grande emoção e exaltação. Em 27de agosto, a Tv Globo exibe “Glauber Rocha-Morto/Vivo”, Globo repórter dirigido por Paulo Gil Soares. A Tv Bandeirantes exibe, em 29 de agosto, “Glauber na TV”, com trechos do Programa Abertura. Em 31 de agosto, “A Idade da Terra” é relançado no Rio de Janeiro no cinema Rian e em Salvador no Cine Glauber Rocha (ex-Guarany). Em setembro, Luiz Carlos Maciel monta um show no Canecão em homenagem a Glauber, com a participação de atores e artistas. Mostras e retrospectivas de sua obra acontecem no Brasil (Salvador, São Paulo, Brasília) e em vários países. Na Inglaterra, o National Film Institute dá prosseguimento a uma retrospectiva de seus filmes. Outras mostras acontecem na França (Institui: National d’Études Cinematographiques) e Estados Unidos (American Film Institute). Em setembro, Glauber é homenageado no Festival Internacional de Figueira da Foz, em Portugal, e no “Encuentro de Intelectuales por Ia Soberania de los Pueblos de Nuestra America”, em Havana, Cuba. “História do Brasil” é exibido pela primeira vez no Brasil, em dezembro, no Cine Arte UFF, em Niterói. É publicado, no Brasil, “Revolução do Cinema Novo”, coletânea de artigos e entrevistas de Glauber, pela Embrafilme e Alhambra. Na Itália, a IRAI (editora da RAI) publica “La Nascita Degli Dei”, o roteiro de “O Nascimento dos Deuses”, de Glauber, nunca filmado, com desenhos de Paula Gaitán. Projetos: Em texto inédito (série Produção Intelectual, Acervo Tempo Glauber) intitulado “A conquista de Eldorado” (sem data, provavelmente escrito em Sintra em 1981), Glauber passa em revista toda sua vida, numa espécie de balanço e roteiro de atividades e viagens realizadas, onde encontramos o seguinte registro:
Filmes a fazer:
“O destino da humanidade”, “O nascimento dos deuses”, “Os imortais”, “Infinito”, “Ilyada” e “Odisseya”.
Livros:
O GYGANTE ADAMAZTOR – romance JANGO – O PREZYDENTE QUE O POVO KOMEU -teatro e romance O PROFETA DO ATLÂNTICO – contos e novelas ANANECY – poemas JORNAL DA VYDA (entrevistas, política e literatura etc.) EXKORPYÃO (papéis avulsos sobrados de jornal vyda)ROTEYROS DO TERCEYRO MUNDO (de pátio a idade da terra) REVISÃO CRITICA DO CINEMA BRASILEI RO (Revisão, atualizar)O SEKULO DO KYNEMA (finalyzar)O NASCIMENTO DOS DEUSES (ok, reeditar com o filme) REVOLUÇÃO DO CINEMA NOVO (reeditar corrigido)-RIVERÃO SUSSUARANA (reeditar edição completa)BIOGRAFYA ÉPIKA E DIDÁTICA DE LEON H. (texto foto montagem]) kryação do parayzo (texto de Sintra) O destino da humanidade […]montagem de O GuaranyVILA-LOBOS – O ROMANTYZMO BRAZY LEYRO (ensaios e teatro) e a(FRYK)a [roteiro sobre escravos]
A explosão de uma bomba do Rio Centro fere dois militares envolvidos no atentado contra os participantes da festa do 1° de Maio. “Eles não usam Black Tié”, de Leon Hirszman, é premiado no Festival de Veneza, em Havana e outros festivais.
São lançados os documentários: “Terceiro Milênio”, de Jorge Bodansky e Wolf Gauer; “Jânio a 24 Quadros”, de Luiz Alberto Pereira (Gal).
DIFUSÃO DA OBRA, post mortem:
1982
Raquel Gerber publica O Mito da Civilização Atlântica: Glauber Rocha, Cinema, Política e a Estética do Inconsciente pela Editora Vozes. Pedro del Picchia e Virgínia Murano publicam Glauber, o Leão de Veneza, pela editora Escrita, uma entrevista com Glauber sobre a polêmica participação de A Idade da Terra são exibidos durante o Festival de Berlim. No Festival Internacional do Curta-Metragem e Documentário, em Lille, França, são exibidos “Pátio”; “Amazonas, Amazonas”; “Maranhão 66”; “Di” e “História do Brasil”. Em março, acontece o Ciclo Glauber Rocha, em Florianópolis. Em agosto, a mostra Tempo Glauber acontece em Salvador. No Centro Cultural São Paulo ocorre uma retrospectiva de seus filmes. No Rio, é feita a mostra Glauber Presente, no Colégio jacobina, organizada pelos alunos da Universidade Federal Fluminense e RioArte. No dia 22 de agosto, a Tv Bandeirantes exibe um especial sobre Glauber dirigido por Paula Gaitán. É exibido, no dia 23 de agosto, no Cinema Veneza, o curta-metragem “Abecedário”, sobre Glauber, dirigido pelo português Manuel Carvalheiro. Também no dia 23, o programa Noites cariocas, da Tv Record, promove uma mesa-redonda sobre o cineasta. Em setembro, uma retrospectiva de seus filmes acontece no Centro de Estudos Cinematográficos de Belo Horizonte, e Glauber é homenageado pelo Tuca (Teatro da Universidade Católica), em São Paulo.
1983
No Carnaval carioca, Glauber é homenageado pela Escola de Samba Lins Imperial com o samba-enredo “Glauber Presente”. É lançado O século do cinema, coletânea de artigos de Glauber sobre o cinema americano, o neorrealismo e a Nouvelle Vague, pela Editora Alhambra. Ismail Xavier lança Sertão Mar: Glauber Rocha e a Estética da Fome, pela Editora Brasiliense. Em 28 de agosto, a Tv Bandeirantes exibe o filme “Di”. Em Recife acontece a mostra Passem Glauber, no Teatro do Par que. Em dezembro, o acervo da obra de Glauber Rocha, reunido por sua mãe, Lúcia Rocha, ganha uma sala no Museu da Imagem e do Som do Rio de janeiro. O acervo recebe o nome de Tempo Glauber.
1984
“Câncer” é exibido pela primeira vez, no dia 22 de agosto, no Rio de janeiro, na Universidade Santa Úrsula, em sessão especial promovida pela Embrafilme e pelos amigos de Glauber. Randal Johnson publica Cinema Novo X 5, estudo sobre cinco diretores do Cinema Novo, incluindo Glauber.
1985
“Roteiros do Terceyro Mundo”, livro projetado por Glauber com os roteiros e diálogos de seus longas-metragens, é publicado pela Embrafilme/ Alhambra, organizado pelo cineasta Orlando Senna. Em março acontece no cine São Luiz 1, no Rio de Janeiro, a mostra Glauber por Glauber, a primeira retrospectiva completa dos seus filmes, exibida em onze estados brasileiros.
1986
O Festival de Veneza faz uma homenagem especial a Glauber Rocha com uma retrospectiva completa de seus filmes. O crítico Lino Miccichè organiza, na Itália, os livros Scritti sul cinema e Rocha: saggi & in vective sul Nuovo Cinema. Em agosto, é inaugurada em São Paulo a mostra Tempo Glauber, promovida pelo SESC, que percorreria vinte estados do país e pequenas cidades, inclusive Rio Branco, no Acre, aonde chegou em outubro de 1989. É publicado O ideário de Glauber Rocha, de Sidney Rezende, pela Editora Philobiblion, com citações de entre vistas e artigos de Glauber na imprensa. Roque Araújo, colaborador de Glauber, realiza “No tempo de Glauber”, uma montagem de sequencias (“sobras”) não incluídas em “A Idade da Terra”, com trechos das polêmicas filmagens de Glauber em Salvador.
1987
A crítica francesa Sylvie Pierre publica, na França, Glauber Rocha, na coleção Auteurs, da Cahiers du Cinéma. É publicado “Barravento”, a estreia de Glauber, de José Gatti, da Editora da Universidade de Santa Catarina.
1989
É organizado o livro “Poemas Eskolhydos” de Glauber Rocha, seleção de 28 poemas de Glauber escritos entre 1965 e 1981, pela Editora Alhambra. O livro não é lançado comercialmente. É realizado “O Homem dos Cabelos Azuis”, documentário de Sylvie Pierre e Georges Ullman sobre a relação de Glauber com a crítica europeia. No dia 22 de março é inaugurado o Tempo Glauber, acervo com cerca de 60 mil documentos, entre filmes, correspondência, escritos, publicações, poesias, desenhos e entrevistas de Glauber, dirigido por Lúcia Rocha, na rua Sorocaba, em Botafogo.
1991
Em outubro, em Los Angeles, é exibida pela primeira vez a cópia nova de “Terra em Transe” feita por iniciativa do cineasta americano Martin Scorcese. Que viva Glauber, documentário de Aurélio Michiles, é exibido no dia 27 de outubro, na Tv Educativa.
1994
Em março e abril, é realizada no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, a mostra Glauber Rocha, um Leão ao Meio-dia, com palestras, filmes, vídeos e exposição de desenhos de Glauber, além de fotos e documentos da época. Em 26 de setembro, é outorgado a Glauber Rocha o título de doutor honoris causa, pela Universidade Federal da Bahia.
1996
Em julho, o Tempo Glauber inaugura sua página na Internet. No mesmo mês, a Universidade Federal do Sudoeste da Bahia promove em Vitória da Conquista, cidade em queGlauber nasceu, o evento Glauber Rocha e o Século do Cinema, e outorga a Glauber o título de doutor honoris causa. No Rio, Lúcia Rocha lança a Associação dos Amigos do Tempo Glauber. Luiz Carlos Maciel encena a peça Jango, de Glauber. É publicado o livro Anabasis Glauber: da Idade dos Homens à Idade dos Deuses, de Martim Cezar Feijó, Edição Anabasis e Fundação Álvares Penteado. O acervo Tempo Glauber recebe convite do governo da Bahia para transferir-se para Salvador. Depois de uma pesquisa de três anos, a correspondência de Glauber é selecionada e organizada para publicação.Cronologia revisitada por Paloma Rocha publicada no livro “Cartas ao Mundo” de Ivana Bentes























